quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Qualquer chão leva ao céu" na visão de um cigano

Ilustração de Martha Werneck para o livro Qualquer chão leva ao céu
"Cristina
Esta fala é uma homenagem do povo kalom ao seu carinho e a sua dedicação à cultura cigana. Você que não se importou com preconceito e a discriminação dos não ciganos, sendo você mesma uma não cigana, tornou-se uma das mais respeitadas pesquisadoras do povo cigano, trazendo a público seus trabalhos através dos muitos livros já escritos e os muitos que irá publicar. Como dito por você certa vez:  ''Chegar às barracas dos ciganos ou às casas dos mesmos  também foi fruto de persistência e consequente aprendizado, pois que, num primeiro momento, os ciganos se espantaram com meu interesse por suas tradições e foi um árduo trabalho fazer entender-me e explicar minha real intenção com as pesquisas e a publicação dos livros''.
Posso imaginar como foi dura a sua trajetória até aqui, mas valeu a sua determinação. Até agora, tudo sério e acreditável com relação aos ciganos partiu de você, e não podemos esquecer disso. Você nos tirou do anonimato e nos colocou em evidência.
Portanto lhe digo: o que valeria a âncora guardada dentro do navio? Ela só pode ser útil quando lançada ao fundo do mar, atada a uma corda que, presa no navio o ancora e o estabiliza.
E agora eu lhe pergunto, como seria o mundo sem os ciganos? Sem seus acampamentos, suas danças, seus artesanatos, suas cartomantes, seus casamentos, suas festas, seus batizados? Não é de minha imaginação ver o mundo sem os ciganos. Nós somos o povo das tendas, vivendo à beira das sendas, negociantes ou quiromantes, andando nas ruas de cidades em cidades, todos os dias.
Nos reunimos à noite ao redor do fogo para espantar os fantasmas das trevas e conversarmos animadamente  bebendo em pequenas doses nosso café para esquecer nossos algozes.
Você entendeu que somos determinados a viver e defender nossos valores. Nascemos ciganos e, enquanto vivermos nesse planeta Terra,queremos ser ciganos!
Nossa gratidão a sua pessoa que é por nós considerada do povo esquecido, e por muito tempo marginalizado, uma amiga autêntica e grande divulgadora!
Marcos Rodrigues."
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"COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO DA CRISTINA

Ao me deleitar com a leitura do livro Qualquer chão leva ao céu, a história do menino e do cigano, de autoria da Cristina da Costa Pereira, faço um breve comentário sobre a obra. Como eu já havia dito, a Cristina é uma grande pesquisadora da cultura cigana. Realmente suas  colocações com base em suas observações no dia a dia dos ciganos, vêm fielmente afirmar uma realidade talvez só vivida pela sociedade cigana.
Tanto a família como os filhos, as crianças, desempenham um papel preponderante na romanipen (vida cigana). Como um cigano kalomautêntico (nasci, cresci e vivi 40 anos como nômade e até hoje mais 20 anos como seminômade), posso afirmar de cadeira tudo isto. Como relatado em meu livro, cuja parte em que falo da família agora transcrevo: ''A vitça ou família nuclear, formada pela união de um homem com uma mulher, é quem desenvolve toda economia doméstica, o casal determina a lei da casa e administra todos os bens desta família e os filhos não opinam, mas acatam as decisões do casal sendo o pai o maior educador dos filhos. Portanto, para  a formação dos casais, damos uma  grande importância ao casamento e ao nascimento de nossos filhos. No casamento, celebramos a perpetuação da hegemonia cigana, já no nascimento de nossos filhos se perpetua a etnia cigana, completando o ciclo de vida do casal e transferindo este ciclo  ao recém-chegado membro desta família."
Por isso vemos a execração deste ciganoprotagonista da história narrada por Cristina, que,  por um descuido, envolve  a família num acidente de trânsito e fatalmente perde a sua parte mais preciosa. Depois, tenta se redimir com a sua família patriarcal, salvando um menor de rua. Porém não convence o seu ato de bravura , pois tenta fazer do menino um cigano.
Portanto colocando o pingo no i, o menino é entregue aos seus familiares para ser educado dentro de seus costumes  e o cigano relapso continuará vivendo isolado pela culpa, mesmo sendo recebido pelos seus.
 Marcos Rodrigues."

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