quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entrevista com Heloisa Prieto



Ainda no embalo do lançamento de ontem (a maior festa!) do livro Escrita Secreta, na Livraria Cultura da avenida Paulista, em Sampa, segue abaixo um papo legal e revelador entre a entrevistadora Gabriella Mancini, jornalista e roteirista , e nossa querida entrevistada Heloisa Prieto,  autora – premiadíssima – do livro.
 "– Eu detesto diários. Não sei se sempre os detestei.
– Então escreva cartas.
– Para quê? Para quem?
– Para si mesma. Depois, se quiser, rasgue tudo. Queime. Palavras escritas ficam para sempre impressas. De um jeito ou de outro."
Trecho do livro “Escrita secreta”

Palavras reveladas 
 Em “Escrita secreta”, o mistério – artifício recorrente na obra de Heloisa Prieto – começa na capa, que traz o título escondido sob uma aba. À medida que a leitura avança, o livro surpreende, indo na contramão: a proposta aqui é revelar a autora, nos aproximar de seu universo em textos que refletem sobre a própria escrita.
 O leitor se sente como quem tem acesso a um diário ou gaveta de ideias da escritora, entrando em contato com memórias de infância, imagens de família, frases soltas, confissões, lendas e poemas que marcaram a autora  – fragmentos de narrativa antes guardados, “escondidos”, que agora ganham valor em si.
 A corajosa exposição de Heloisa é feita sem alarde, em silhuetas, entrelinhas, sutilezas. Introspecção e delicadeza aparecem também nas fotos de Priscila Nemeth e Anne Bergamin Checoli que acompanham os textos, potencializados pela arte gráfica de Eugênia Hanitzsch.
 A seguir, Heloisa conta mais sobre seu novo livro e seu processo de escrita.

Gabriella Mancini: Por que revelar escritos secretos?
 Heloisa Prieto: Sempre me perguntam se tenho histórias inacabadas. Percebo que muita gente abandona a escrita pessoal por não saber como terminar um conto ou romance. Senti então vontade de mostrar o lado mais secreto da minha criatividade, o avesso mesmo. As frases que me fazem pensar, recontos antigos que vivo montando, como a lenda do vale, do poeta Nerval, histórias sem resolução final. Ao fazer isso, percebi que os fragmentos do livro eram diferentes de antologias de prosas poéticas, mais reflexivos e contemplativos. Compreendi melhor a mim mesma. Para mim, viver é caminhar no fio da navalha, como diria Somerset Maugham, cuja obra releio constantemente.

GM: "Escrita secreta" cita textos abandonados/guardados, memórias, notas em pedaços de papel. Eles foram todos criados para este livro ou também estavam guardados na gaveta ou em papéis soltos?
 HP: A ideia veio de algo bem prosaico: fui mudar meus arquivos de um computador para o outro e o técnico resgatou um antigo conjunto de textos intitulado: ideias. Percebi, ao reler tudo, que eles não teriam continuação. Quer dizer, não eram textos germinais e sim finais.

 GM: Você tem ou já teve diários?
 HP: Sim, quando era menina, escrevia diários e os escondia no meio das estantes da biblioteca do meu pai. Hoje em dia, mantenho várias anotações. Ando sempre com caderninhos onde esboço frases, sensações. Ultimamente ando praticando a técnica de traduzir uma percepção sensorial em narrativa. Criar os acontecimentos que geram a transformação interna. Também continuo com um arquivo de ideias no computador. Mas tenho boa memória auditiva.

 GM: Em um dos textos, o livro traz um pacto feito com um vampiro, tendo a escrita como protetora da personagem. O artista é uma espécie de médium, que vê ao redor o que ninguém mais enxerga, como parte de um pacto secreto. Você se sente prisioneira da escrita, ao “ver ideias” em tudo? Ou seja, a escrita às vezes é um incômodo (por não conseguir se desligar dela)?
 HP: Não existem regras para minha escrita. Ela é um espelho que me ajuda a decifrar a vida, as pessoas, os meus medos. Ao mesmo tempo, há momentos de encantamento puro que vivencio e tento capturar por meio dos personagens e situações. Finalmente, a escrita é minha forma de manter vivas pessoas que já partiram e compartilhá-las com os leitores. Fiz um livro sobre a infância de meu pai, quando ele se foi. Sempre que vejo um leitor perguntar dele como se o conhecesse, fico feliz e emocionada. Meu pai foi uma de maiores influências, apaixonado pelos grandes mestres da escrita de aventura. E minha mãe, que posou para as fotos de dona Sofia. Digamos que meu pai era uma influência solar, sempre falando das viagens, defesa da natureza e animais. Minha mãe chamava minha atenção para os perigos invisíveis, tudo aquilo que nos assombra. Ela continua sendo uma exímia contadora de causos de terror. Narrar (e/ou escrever) é uma boa forma de pensar na vida.

 GM: Tem algum pudor ao escrever ou nada é impublicável?
 HP: Não tenho mais nada na gaveta agora.  Não escrevo com pseudônimo, e não guardo mais nenhuma escrita secreta. Este livro foi algo que exigiu coragem. Uma forma de desnudamento mesmo.

 GM: Você vem se dedicando à meditação e à ioga. Como isso tem interferido na sua literatura?
 HP: A ioga me ajudou a ver desde outros pontos de vista, literalmente. Ver o mundo de cabeça para baixo ou na posição do cachorro olhando para a lua, por exemplo, me fez resgatar uma alegria e curiosidade de infância. O trabalho físico da ioga, acompanhado por minha professora, Ana Borella, foi de grande impacto na minha criatividade.
Há alguns meses comecei a dedicar intensamente à meditação zen budista. As ideias passaram a fluir mais intensamente. No templo Busshinji, em São Paulo, tive o privilégio de conhecer um mestre zen, Dosho Saikawa, escritor e ilustrador, que tem me ensinado a técnica dos koans, breves contos de ensinamento. Além disso, por influência de nossas conversas, as novas histórias mostrarão mudanças na estrutura do enredo. Estou começando a apreender breves momentos de paz e contentamento, mesmo na turbulência complexa do mundo contemporâneo.



Para conhecer ainda mais o livro, é só acessar

http://www.escritafinaedicoes.com.br/

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